O tema sucessão familiar vem ganhando cada vez mais espaço no agronegócio, o que já é de se esperar, uma vez que as fazendas estão se profissionalizando e sendo tratadas como um negócio formal - a empresa rural.

Se formos procurar a palavra sucessão no dicionário, encontramos o seguinte significado: hereditariedade, substituição, sequência e continuidade. No primeiro setor, está diretamente ligado a transferência da empresa rural - de quem atualmente está no controle dos negócios familiares, para quem irá sucedê-la.

Baseada no trabalho, propriedade e gestão, a sucessão familiar não envolve somente a transferência patrimonial em si, mas também, a transferência do poder de decisão, de autoridade e da responsabilidade, que são pontos chaves no comando de uma produção.

O ciclo da sobrevivência, expansão e continuidade da empresa rural é muito importante, não somente pelo negócio familiar em si, mas também a nível nacional, Visto que 77% dos estabelecimentos do setor são classificados como Agricultura Familiar (Censo Agro 2017 - IBGE) e sendo inclusive o principal responsável pela produção dos alimentos que são disponibilizados para o consumo interno da população, as quais podemos destacar os produtores de mandioca (87% da produção), pecuária leiteira (60%), gado de corte (30%), feijão (70%), arroz (34%), suínos (59%), aves (50%), café, fruticulturas, hortaliças e pescados.

Segundo o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), na agricultura familiar a gestão da propriedade é compartilhada pela família e a atividade produtiva agropecuária é a principal fonte de renda. Além disso, o produtor tem uma relação particular com a terra que geralmente é o seu local de trabalho e moradia.

De forma mais abrangente o agronegócio como um todo é responsável por mais de 21% da riqueza econômica do Brasil (CNA) e é capaz de suprir toda a demanda interna e ainda gerar excedentes para sua exportação.

De maneira geral, 90% das empresas nacionais possuem perfil familiar e chegam a representar aproximadamente 65% do PIB e 75% dos empregos do setor (IBGE). No entanto, as questões sobre como se dá a sucessão familiar ainda não são bem difundidas e poucas são as propriedades que se preparam para uma sucessão, o que pode tornar o processo moroso e prejudicial para o negócio e consequentemente para a família.

Por isso a importância em se estruturar o quanto antes um plano de sucessão estratégico que leve em consideração as especificidades do negócio, a estrutura familiar, empresarial e o tipo de patrimônio.

O plano deve garantir, portanto a melhor maneira em se transmitir para os sucessores, não só o patrimônio em si, mas também o poder de decisão, estabelecendo papéis e responsabilidades e definindo quem vai ocupar os futuros cargos de chefia, a fim de minimizar riscos e assegurando a sustentabilidade e perenidade do negócio.

O SEGREDO PARA UMA SUCESSÃO FAMILIAR DE SUCESSO

Para que o processo de sucessão familiar seja bem-sucedido, minimizando conflitos, deve haver muito diálogo entre as partes. Este planejamento requer inclusive que os envolvidos - sucedido e sucessor, estabeleçam formas claras de separar assuntos familiares dos profissionais.

Ou seja, os pais (administradores da empresa), devem começar a enxergar se os filhos têm ou não perfil para os sucederem, para então iniciar a preparação dos mesmos - transmitindo seus conhecimentos do negócio e treinando-os (ou buscando algum nome no mercado) a fim de se tornarem os próximos administradores da empresa.

Quanto antes esse processo for iniciado, melhor será, para que se tenha tempo hábil de ser feito e para que alcance uma maturidade adequada quando chegar o momento de se executá-lo, portanto, ter de fazê-lo às pressas não é o recomendado.

Conversar e alinhar as expectativas, explicar o funcionamento da fazenda na prática e ir incorporando o sucessor nas atividades da propriedade simplifica esse processo.

Outra opção que pode facilitar o processo, é a contratação de consultorias e assessorias especializadas no tema. Com experiência de mercado e casos práticos de sucesso, elas possuem as competências necessárias para identificar as especificidades do negócio e não menos importante, as questões contábeis e judiciais que possam estar envolvidas.

Tecnologia - uma oportunidade de mudança e modernização

É importante ressaltar que a ‘cultura’ da empresa deve ser levada em consideração e na medida do possível preservada (ou reajustada) - tradição, valores, costumes, características únicas do negócio, etc. Mas também esse é um momento único pelo qual o empresário rural possa também se preparar para o futuro e planejar uma estratégia de longo prazo. O campo evoluiu muito nos últimos anos por meio da tecnologia, que trouxe inovações como: novas variedades de cultivares, melhores máquinas, novas técnicas de manejo, agricultura de precisão, telemetria, sistemas de gestão e monitoramento, são apenas algumas das práticas que estão sendo adotadas visando melhorar a eficiência operacional das fazendas.

Entretanto, sabemos que muitas dessas novidades ainda não foram incorporadas de fato nas propriedades, sobretudo quando estamos falando das empresas familiares em um setor considerado conservador e averso a mudanças. Por isso, esse é um momento ímpar para que o setor se modernize e passe a considerá-las, ou melhor, incorporá-las em seu negócio. Um bom plano de sucessão deve estar preparado para isso.

Apesar da idade média dos agricultores ainda ser elevada (46,5 anos segundo a ABMRA), o número de jovens atuando no campo é cada vez maior e embora tenham menos experiência prática, eles estão mais conectados com a tecnologia, uma das principais estratégias para aumentar a rentabilidade, qualidade e sustentabilidade das produções.

Portanto, talvez os jovens sejam os mais indicados para endereçar essas mudanças, tornando-os fortes candidatos a atores em um plano de sucessão.

PLANEJAR É ESSENCIAL

Como já mencionado, o planejamento é muito importante para uma sucessão familiar bem-sucedida.
A falta dele pode muitas vezes resultar em uma dificuldade da empresa se manter no mercado ou em casos extremos ir à falência. Tenha em mente também que algumas dificuldades podem incorrer no processo, tais como:

  • Falta de interesse da nova geração em assumir o negócio;
  • Falta de aptidão dos herdeiros (perfil incompatível);
  • Rivalidades e conflitos familiares;
  • Resistência do sucedido (centralização do poder, medo de perder a liderança);
  • Choque de cultura e/ou opiniões entre as gerações
Vocês podem, por exemplo, chegar à conclusão de que não há interesse ou aptidão para continuar no negócio e optar pelo arrendamento ou venda da propriedade, porém tudo deve ser analisado e estudado previamente e não ser realizado e executado às pressas.

Se feito com antecedência o plano pode por exemplo antecipar e consolidar o treinamento do sucessor, quanto mais tempo as gerações trabalharem em conjunto, melhor será para o negócio. Tentativa e erro não é uma boa opção nesse caso e é preciso estar preparado para assumir o negócio – ainda que como acionista.

Mas como começar?


Tão logo seja percebida a necessidade de um processo sucessório, seu planejamento deve ser iniciado. Percebê-lo como um processo é fundamental, para que seja estruturado em etapas que compreendem: a identificação do potencial sucessor, sua preparação para a gestão e a transferência da propriedade e do negócio.

1 - Defina o(s) sucessor(es)


O sucessor deve ser identificado e informado sobre a possibilidade da sucessão. Assim, o filho(a) ou sucessor(es) pode(m) pensar sobre a possibilidade e escolher se irá continuar com o negócio da família.

Essa é uma etapa importante e recomenda-se que seja feita enquanto o sucedido ainda estiver vivo, antes de ter de ser realizada com urgência, porque dessa forma ele pode preparar quem for sucedê-lo e ainda trabalhar a ideia de que o sucessor seja seu sócio neste primeiro momento, garantindo que eles façam uma gestão compartilhada (por um período determinado) e o processo de sucessão seja mais rico e eficaz.

Basicamente, existem duas formas pela qual o atual gestor por escolher seu sucessor:
  • ele pode apontar um de seus familiares (herdeiros naturais) que tenha interesse em dar continuidade ao negócio e demonstre as competências necessárias, ou;
  • contratar um profissional especializado que vá gerir a empresa, enquanto os sócios discutem a gestão e estratégia, porém sem envolvimento direto na operação, como numa espécie de ‘conselho administrativo’ (essa opção é a que geralmente ocorre em grandes empresas/conglomerados)
Portanto, para tomar essa decisão, leve em consideração todas as competências que são necessárias para a perenidade do negócio e procure opções de sucessores que atendam às exigências que você listou como essenciais.

Atenção! Muitas vezes, quando não há consenso entre as partes, a opção escolhida acaba sendo a de avaliar o valor total do patrimônio e dividi-la em partes iguais entre os herdeiros, considerada geralmente como a ‘’forma mais justa’’. Entretanto, essa alternativa pode ser perigosa e ocasionar na completa falência da empresa familiar. Isso é especialmente perigoso quando cada sucessor fica com uma área/volume pequeno e com pouca expressão no mercado, perdendo tanto em sinergia quanto em força competitiva, dessa maneira essas pessoas podem acabar indo à falência ou se verem obrigadas a vender suas terras, ou seja, sendo prejudicial à todas as partes.

2 - Reúna a informação necessária


Não se pode medir ou melhorar o que não se conhece, por isso, comece levantando todas as informações relevantes para gestão da sua fazenda, tais como:
  • Custos e Receitas;
  • Históricos de safras;
  • Rentabilidade;
  • Atividades e processos existentes;
  • Ativo imobilizado (Benfeitorias, máquinas e implementos, ...);
  • Parceiros (Clientes, fornecedores, prestadores de serviço);
  • Área total, área plantada, APP, reserva legal, etc.;
  • Documentos legais (Contratos de arrendamento, parceria, registros de imóvel, outorgas, etc.).
Nesta etapa um grande facilitador é já possuir um software de gestão rural que reúna todas as informações relevantes da sua fazenda em único local e facilite o planejamento estratégico, a exposição de dados atuais e antigos do negócio e auxilie na tomada de decisão.

Se quiser saber mais sobre como um sistema de gestão pode te auxiliar, clique aqui e agende uma reunião com nossos consultores.

Cabe lembrar novamente a necessidade de se acrescentar o pilar da ‘tecnologia’, visando maiores ganhos de escala e redução nos custos. Elabore ainda resultados e metas a serem alcançadas nos próximos anos para que estes estejam claros para todas as partes, sobretudo ao sucessor que dará sequência ao trabalho.

3 - Treine o sucessor


Uma vez definido, este deve receber todas as informações da propriedade e do negócio, assim como atividades costumeiras e estratégias para tomada de decisão.

Quando há planejamento, é comum que o sucessor aproveite para usar esta etapa para profissionalizar-se como produtor, aproveitando as especializações e cursos que o mercado tem oferecido nos últimos anos (destacamos alguns deles nesse artigo).

Nessa fase também é relevante que entre o sucessor e o sucedido estejam claro quais são as outras partes interessadas/envolvidas nesse processo, elaborando e executando um plano de comunicação junto aos mesmos, sobretudo para formalizar decisões importantes e minimizar eventuais problemas que possa surgir.

A experiência de quem vem atuando na linha de frente nos últimos anos, é sem dúvida extremamente importante e quando aliada com as novas ideias e a vontade de aprender e crescer do sucessor, torna o processo de sucessão muito mais rico e assertivo.

Aproveite este tempo para planejar a hora adequada para sua saída do negócio - quando seu sucessor irá assumir - e como se dará este momento pessoal para você.

4 - Passe o bastão!


Depois de realizar todo o planejamento e execução da sucessão, de início a transferência da empresa rural de fato.

É fundamental que haja um acordo, definindo papéis e responsabilidades, datas e regras de entrada, como será a divisão do controle acionário, entre outros assuntos – registrados em contrato.

O negócio deve ser então formalizado e passado para o sucessor por acordo, que geralmente compreende três áreas:
  • i) a transferência da gestão;
  • ii) a transferência patrimonial; e
  • iii) a divisão dos rendimentos provenientes da fazenda.
Caso você tenha optado por contratar um profissional especializado e apenas o conselho será composto por sócios-familiares, cuide para que seja feito um documento de “Acordo de Cotistas”, ou seja, um contrato feito entre os futuros proprietários, com as regras (direitos e deveres) estabelecidas entre as partes.

Independente de qual seja o tipo de acordo/contrato, recomenda-se contratar uma auditoria externa e isenta, capaz de atestar a veracidade dos dados analisados, assegurar a operação como um todo e garantir que todos os interesses estejam preservados.

Para se aprofundar mais


Sobre o autor

Eduardo Rezende
Formado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pós graduado em Consultoria Empresarial pela Fundação Instituto de Administração (FIA/USP). Eduardo tem mais de 10 anos de experiência no mercado de TI atuando como consultor de projetos em grandes empresas nacionais e internacionais. Eduardo também é produtor rural e diretor na agrosolutions.

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